29 de janeiro de 2008

Ausência

A ausência do teu vulto
(Embora insuficiente
Para te apartar da gente)
É um injusto tumulto
Que dói mais do que um insulto
E faz sofrer quem a sente.

A ausência é sobeja –
Morte, para os que te esquecem!
Aos males que os bons padecem
Não há um perdão que seja:
A ausência sempre beija
Aqueles que não merecem.

Dário Guerreiro, amigo.

De armas ao vento
A gente, triste, cala e chora
Chora o triste momento
No qual o guerreiro partiu lento
Fugiu, já lá não mora

Tantas foram as batalhas
Demais, diria até
A vida levantando muralhas,
E lutando tu, com a fé

A fé, a esperança, a vontade,
A coragem para sorrir
Expressam-se agora na liberdade
Que tanto nos custa admitir

A força viva de tão tenra idade
A força que te viu partir…
Como puderam roubar-te o viver
Como puderam levar-te o sorrir
Para lá longe, onde não o pudemos ver
Onde não te pudemos acudir…

Dino Matias, amigo.

Onde vais, guerreiro, sozinho?

Mil homens atrás daquela serra
Esperam-me para a guerra.

Não haverá outro caminho?


Nunca há outra via, fuga ou meio.

Deixa-me pelo menos ir contigo.

Esta luta é só minha, bom amigo,
E de certo, o combate ficará feio.


Eu sou só um simples pescador
Mas não te abandono face á morte.

Se for essa, amigo, a minha sorte
Vencê-la-ei, sem medo da dor.


Porquê essa luta tão desleal?
Porque és obrigado a lutar?

É a sina. A vida é luta, afinal.

Há algo em que te possa ajudar?


Não podes fazer nada, obrigado.

Então juntamos o pessoal à vinda,
Conversamos e haja tempo ainda,
Assamos o que eu tenha pescado.


Despedimo-nos sorrindo,
Lembrando os tempos antigos,
E abalou para onde, bramindo,
O esperavam mil inimigos.

Sabia ao que ia, e dizia
não haver outra maneira.
Eu vi como ele os rompia,
Fileira atrás de fileira.

O maior inimigo, bandido,
cercava-o por todo o lado,
Mas ele permanecia erguido,
De orgulho e braço alçado.

E se derrubado pela multitude,
imediatamente se levantava,
solitário guerreiro da virtude,
homem e alma sorridente e brava.

E o povo notou com tristeza,
Não poder ajudar o solitário
Guerreiro, da mais alta nobreza,
Destemido contra o calvário.

Um exército contra um homem.
Fecha os olhos e adormece,
És livre, voa com coragem,
A nossa memória permanece.

Viveste de espada na mão.
E um escudo de esperança.
Até ao dia em que a ferida
Foi mais forte que a vida.
Mas hoje, hoje descansa,
Acabou a guerra, João.

Tiago Prata, amigo.

18 de dezembro de 2007

Se eu pudesse voar...

Se eu pudesse voar…
Ia ao cimo das montanhas
Para com os pássaros brincar.

Se eu pudesse voar…
Ia aos sítios mais altos
Com alegria os explorar.

Se eu pudesse voar…
Voaria tão alto
Que tudo poderia alcançar.

Se eu pudesse voar…
Numa bela árvore
Com os pássaros iria cantar.

Se eu pudesse voar …
Pelo mundo iria viajar
Por todos os lados iria passar.


João Francisco Nanita Mourato, 2000

18 de novembro de 2007

As ondas vêm e vão. São força, são vida, são grandeza, mas vêm, e vão. Formam-se, viajam, e viajam e vêm rebentar na areia. Incontáveis ondas, desde sempre, para sempre, que vêm e se vão, levadas pela maré, como se jamais tivessem existido. Mas algumas, pela sua grandeza, ou força, que nos maravilham, fazem-nos desejar que fiquem, que nunca rebentem, e se vão. Mas vão na mesma, porque as ondas vêm, e vão. E quando se vão, não deixam vestígio da sua presença, a não ser o sentimento e a admiração que ficou dentro de nós. Vêm, e vão. Todas voltam ao mar, de onde vieram. Não rebentam e deixam de existir, porque as ondas, que vêm e vão, são água. Quando vão, apenas mudam de forma. A força e grandeza transformam-se em calma, em brandura, como as águas que reflectem o pôr-do-sol. São assim as ondas, vêm, e vão. E assim somos nós também, como as ondas, viemos e vamos. Mesmo que não queiramos. Deixamos a memória, o sentimento dentro de nós, e a força torna-se paz. Pois somos como ondas. Que vêm, e vão. Sabemos que como viemos, também teremos de ir. Mas também sabemos que nos voltaremos a ver...